A Teoria de Mudança já ocupou um espaço estratégico no campo do impacto e/ou desenvolvimento social. A ferramenta, concebida antes da virada do milênio, ganhou força em anos recentes, passando a ser adotada por um grande número de financiadores, negócios de impacto e organizações da sociedade civil como mecanismo de apoio para conceber avaliações e planejamentos.

Em boa medida, ela começa a ocupar o terreno antes intocável do marco lógico por este ter sido, equivocadamente, reduzido simplesmente ao quadro lógico, o último de seus sete passos clássicos de produção[1], bem como pela limitação que esta técnica revelou ante a necessidade de mostrar flexibilidade e constante revisão de indicadores à medida que projetos e programas amadurem a sua ação na realidade. Sendo justo, não se trata da inflexibilidade da técnica, mas sim da cabeça de gestores que, cintura dura, escreviam em pedra quadros lógicos e repetiam a necessidade de seu acompanhamento independente dos avanços ou mudanças no contexto das intervenções. Nesse cenário, a proposta contemporânea da Teoria de Mudança trabalha com expressões em forma de imagens dos planos e ganha leveza ante a densidade exigida pela rigorosa elaboração de um marco lógico. Ela oxigena um espaço que andava asfixiado.

Entretanto, a Teoria de Mudança exige dois reparos, sendo que o primeiro dá título a este a texto. As referências para a elaboração de uma Teoria de Mudança[2] apontam que sua produção deve partir da declaração de uma grande visão da situação a ser alcançada no futuro, ou seja, a expressão da grande transformação social ou socioambiental desejada. Se por um lado isso carrega a força de constituir uma imagem mobilizadora, a convocar energias para a sua construção, por outro ela pode cair numa concepção romântica porque é elaborada sem uma clara análise do problema. Sim, a Teoria de Mudança não tem em seu protocolo de produção formal uma clara definição do problema a ser enfrentado. Este aspecto marca uma enorme diferença em relação ao marco lógico, que propõe uma cuidadosa análise do cenário desafiador por meio da estratégia da ”árvore de problemas”.

Ao evitar um olhar sobre o problema, cria-se o risco de que negócios, projetos ou organizações da sociedade civil se dediquem a equacionar questões periféricas que não irão, efetivamente, gerar uma consistente transformação social. Como nesse campo a solução de desafios é a causa sobre a qual se erguem empreendimentos inteiros, uma leitura atropelada, rasa ou equivocada do que deve ser mesmo equacionado, sem cair no senso comum muitas vezes presente no setor, irá colocar em risco toda a lógica da estratégia para a construção de uma sociedade mais justa, livre e sustentável.

O segundo ponto de reparo na Teoria de Mudança exige é aspecto também não tratado no marco lógico. Consideramos que declarar públicos a quem o projeto / programa pretende servir e gerar transformações sociais oferece uma significativa referência para orientar grupos e organizações. Mas os públicos, as pessoas, a encarnação objetiva da expressão “social” é ignorada por esta técnica. Propomos, então, que a questão “quais os públicos que serão impactados pela iniciativa?” seja formalmente incluída no processo da elaboração de uma Teoria de Mudança.

Vale mencionar que esforços recentes de produção de uma nova ferramenta, chamada Modelo C[3], já trazem estas inquietações equacionadas, além de incorporarem a dimensão do modelo de negócio, o que é caro para o campo das finanças sociais. Por fim, afirmo que todas as ponderações deste breve texto têm como base a prática. E, na experiência de encontros com grupos e organizações, concluímos que, sem uma boa análise de problema e público, os avanços são limitados.

Por Daniel Brandão, Diretor Executivo da Move Social.

[1] Ortegón, E., Pacheco, J.F., Prieto, A. Metodología del marco lógico para la planificación, el seguimento y la evaluación de proyectos y programas. CEPAL. Disponível aqui.

[2] Este é um belo texto sobre elaboração de TMs: Anderson, A. (2005) The Community Builder’s Approach to Theory of Change: A Practical Guide to Theory Development, Aspen Institute Roundtable on Community Change. Disponível aqui.

[3] Acessível em www.cmodel.co